No destampar da ampola do diurético preferido da Várzea, coincidi uma troca de olhares com uma mulher que se aproximava de mim em elegante andar. Destoava do embriagado andar costumeiro dos varzeanos, mais ainda por ser claramente uma pessoa que não era dali, ou que deveria temer aquele lugar. Ali sob a luz laranja, na arborizada e sombria rua da várzea, lá na Padre Belchior, aquela mulher havia se tornado o centro de todas as atenções, e eu ali na saidera da noite, enchia o copo de um qualquer ao meu lado. Logo tudo foi desmistificado e descobrimos o porquê de sua presença. Estava esperando um ônibus que a levasse para longe daquele estranho e mal vestido lugar da cidade, e olhava com um certo temor para todos que estavam por lá. Havia ainda no ponto uma senhora com um bebe de colo, dois casais e alguns estudantes. Fiquei debruçado sobre o balcão olhando continua e hipnoticamente para aquela mulher, que não parecia ser muito mais velha que eu, e que por alguns milésimos de segundo, ousava olhar para dentro do bar.
Por algum motivo, quando eu já havia me cansado de olhar pra ela no ponto e estava prestes a zarpar, ela veio em direção ao bar, e adentrou a densa nuvem de gordura que pairava sobre o ar. Um tropeiro enorme dentro de uma vasilha era posto dentro da estufa do balcão, e um bafo de torresmo bateu em nossas caras. Eu tentava esconder o meu espanto e admiração pela coragem daquela mulher, e sem mais temer a distância que nos separava, ofereci-lhe um copo. Ela gentilmente recusou, e pediu uma água ao garçom. Sorri pra ela, e pedi desculpas dizendo que admirava o fato dela adentrar um lugar tão mal visto da Bhbilônia. Ela retribuiu o sorriso, e disse que gostava daquele lugar, que sempre que podia tomava uma cerveja antes de ir embora , mas já estava quase na hora do seu ultimo ônibus passar, e ela tinha de ir. Fiquei receoso quanto a parte dela gostar dali, até que tudo mudou naquela noite.
O garçom de nome simpático, havia pegado um copo lagoinha vazio, ido ate a torneira da pia da cozinha encher de água. Voltou de dentro de uma nuvem de gordura com aquele copo e entregou a mulher. Ela agradeceu e tomou num gole só. Foi ai que entendi que a água que ela queria, não era uma torneiral, mas sim o mosto da cana de açúcar fermentado, límpido como a água, porém muito mais FORTE. Desembrulhando o estomago, disse a ela que aquilo era uma atitude doida, e então ela me ofereceu uma água daquela. Não podia recusar por mais que não estivesse nenhum pouco afim de beber cachaça, mas como estava interessado em uma conversa com aquela mulher, cedi a tortura alcoólica e mandei num só gole uma dose da desequilibrante água. Em divertida conversa, a euforia da álcool nos deixou livre da ditadura do ônibus, e esquecemos que tínhamos de voltar pra casa.
Depois de mais umas doses, seguimos cambaleantes e felizes pelas ruas da várzea, trocando papos fiados em longas historias mais mentirosas que reais, um tanto impressionistas, para fazer aumentar a vontade mutua de conhecer o outro. E no desenrolar dos fios do papo, descobrimos gostar muito do mesmo, e resolvemos parar em uma esquina da grande avenida comercial que naquela hora era sombria e deserta. Havia vida naquela esquina, e vida comercial pois um tiozinho vendia um churrasquinho de carne muito mal passado, pouca brasa pra muito espeto, e nesse andar noturno resolvemos nos abastecer e comer aquele nada aconselhável alimento urbano. Para fazer descer os duros pedaços de gordura em nossa boca, compramos um latão de cerveja que boiava na água rala dentro de um intemperizado isopor. Morno e molhado, aquele latão era o desanimo do alcoólatra e mesmo assim bebemos ele sem pestanejar, alias, sem perceber. Era pra mais de três horas da manha, quando de súbito minha companhia que até aquele momento eu não me lembrava o nome , disse que queria dormir e perguntou se eu não animava dividr um motel em algum lugar da várzea. Institivamente olhei para o outro lado da rua e vi que ali havia um motel com nome irreverente e uma luz negra que destoava do entorno. Atravessamos a avenida e fomos em direção para saber o preço do pernoite. Era incrível, muito barato para o que pensamos e pelo que precisávamos foi quase de graça. Uma noite bem dormida era a pedida, e naquele momento havia todo o tesão reprimido de ambas as partes, que parecia ter ali seu limite.
Era quase quatro horas da manha quando finalmente entramos no quarto e ficamos juntos de vez e finalmente, mas tudo aquilo que pareceria ser bom, se virou contra mim. Aquela mulher que tanto me inspirava, me brochou ao dizer coisas desnecessárias sobre motéis e ex-namorados, coisas que não cabiam no momento, e eu resolvi ir deitar de vez. Ela ficou espantada por eu não ter partido pra cima dela ou algo do tipo, mas por estar tão cansado e ao lado de uma mulher historiadora, dessas que só falam do passado, eu me recusei a gastar a energia que fosse , e dormi ridiculamente ao lado de uma linda mulher num motel sem ao menos beijá-la. De nada vale um amor noturno se ele é igual a todos os outros diurnos. Amores noturnos só valem a noite, e nesse caso era apenas um amor diurno se fazendo de noturno. Na Bhbilônia as pessoas se perdem em tempos que seus corpos não conseguem viver, e quando tentam viver tempos diferentes, sofrem por não conseguirem. Em todos os cantos da várzea vivi amores e ilusões, mas no coração da gente sempre fica guardado as recordações exageradas dos acertos. Os erros acabam por sumirem na memória. Sem então mais filosofar na lama que me sentia, decidi pegar meu ônibus assim que amanheceu, e na caótica manhã Bhbilônica, central e sem piedade, desci as escadas do motel e cai de cara na claridade infernal da cidade, em meio a uma tempestade de ruídos e informações. Naquele momento só desejava o silêncio e um copo de água. Eram essas as minhas intenções.
25 de dez. de 2011
9 de nov. de 2011
Luar Bhbilônico
Na barulhenta avenida que corta a Bhbilônia, desde a longínqua e quase mítica Venda Nova até o borbulhante centro da metrópole, aguardava ansiosamente a vinda de qualquer ônibus que me levasse a várzea do rio Arrudas. Estava ali sob a luz laranja noturna, hipnotizado pelo constante vir dos ônibus que a todo instante mudavam de numero, vintedoisquinzes, doimiliquatros, e por ai em verdes e azuis, aquelas gigantescas maquinas milagrosamente não assustavam aquelas pessoas, que como que em transe não percebiam o risco que corriam ali dentro daquelas coisas de aço e petróleo. Mas mesmo durante esse assustador momento, algo me chamou muita atenção, e era uma luz que surgia forte atrás de um barraco na borda oriental da avenida. Intrigado com aquilo, ficava na estressante duvida de olhar para a avenida ou para aquela misteriosa luz. Até quem num desando de encontro, meu ônibus veio, e tive que pegar ele. Ao entrar no ônibus que seguia rumo sul, em direção ao centro, eu consegui observar pela janela do motora, o que era aquela luz. Era uma imensa Lua Cheia que perdida em meio aos postes e prédios da Bhbilônia era pouco vista. Em um impulso Tilelê fiquei feliz, e passei pela roleta já curtindo aquela noite que pelo visto seria FORTE!
Em menos de meia hora estava cruzando o viaduto que me levaria até o baixo centro, a várzea por assim dizer. Desci na rua Caetés, rua de comércio popular diurno e ponto de diversos ônibus, porém a noite se torna hostil, sem vida, um tanto quanto estranha. Por meu ponto ser nessa rua, tenho certo carinho por ela, diríamos que uma relação boa com aquele lugar, pois vejo essa rua como um lugar importante pra mim na cidade, ali define-se o meio de chegar e partir, Estação Caetés! Assim que a chamo. Era uma gelada noite de julho, e o ar descia cortando as tribos do centro, logo desci para a várzea, cem metros distante do ponto. Descida suave, e num exaltar da fome, fui rangar um pastel no cinco por um real da esquina da Caetés com Bahia, o que certamente foi um erro, pois em pouco tempo meu estomago me agredia por dentro, já desanimando de tomar uma breja gelada lá no ultimo bar da Aarão Reis, rua Estação também, na várzea do Arrudas. Sob o viaduto Santereza encontrei uns amigos que em acelerados dizeres me contavam do que pegava na noite varzeana. Entorpecidos pela densa fumaça urbana, adentramos um espaço fechado destinado a uma livre apresentação de teatro. Mas não consegui ficar dentro daquele cubículo escuro, e sai fora pra tomar uma em qualquer outro lugar.
O vermelho na parede era ofuscado pelo branco que se seguia, num vigiar dos homens feitos por outros homens, conhecidos por nós varzeanos como homens. Esses homens pejorativamente falando, nos cercam a todo instante, mercenários pagos pelo Estado, ganham tão mal quanto qualquer um ali da várzea, e se sentem importantes. Ignoramo-os como se ignoram moscas no lixo, e seguimos em cambaleante e divertido caminhar, até topo do monte, o Edifico Maletta. Lá mandei o ultimo torresmo do lugar, e salvei minha vida por alguns instantes, pois logo após isso, encontrei uma turma diferente no mundo varzeano, a famosa Nata da Lama. Nesse contexto de difusão filosófica e lamística do encontro, me perdi em euforia alcoólica, deixando-me levar pela ocasião. Não me lembro muito dessa noite, só de seguir pelas ruas iluminadas não só pela nossa querida luz laranja, mas também pela Lua, que sumida das nossas vidas, conseguiu iluminar o mais profundo lugar da metrópole. Na várzea iluminada, me despedi dos amigos e segui rumo ao ponto de ônibus, lá na Estação Caetés, esquina com Espírito Santo. A lua deitava por trás da Afonso Pena em espetacular perspectiva, quando avistei a tão sonhada maquina que me levaria pra casa. Sai da várzea anestesiado pela endorfina necessária para seguir acordado sem dores pelo cansaço. Rumei norte, rumo a minha casa distante, mas naquele momento, muito desejada. A noite é o cenário de fundo do varzeano, sob a luz laranja tudo é mais vivo, mas sob o Luar Bhbilônico, tudo fica mais incrível. Memorável!
Em menos de meia hora estava cruzando o viaduto que me levaria até o baixo centro, a várzea por assim dizer. Desci na rua Caetés, rua de comércio popular diurno e ponto de diversos ônibus, porém a noite se torna hostil, sem vida, um tanto quanto estranha. Por meu ponto ser nessa rua, tenho certo carinho por ela, diríamos que uma relação boa com aquele lugar, pois vejo essa rua como um lugar importante pra mim na cidade, ali define-se o meio de chegar e partir, Estação Caetés! Assim que a chamo. Era uma gelada noite de julho, e o ar descia cortando as tribos do centro, logo desci para a várzea, cem metros distante do ponto. Descida suave, e num exaltar da fome, fui rangar um pastel no cinco por um real da esquina da Caetés com Bahia, o que certamente foi um erro, pois em pouco tempo meu estomago me agredia por dentro, já desanimando de tomar uma breja gelada lá no ultimo bar da Aarão Reis, rua Estação também, na várzea do Arrudas. Sob o viaduto Santereza encontrei uns amigos que em acelerados dizeres me contavam do que pegava na noite varzeana. Entorpecidos pela densa fumaça urbana, adentramos um espaço fechado destinado a uma livre apresentação de teatro. Mas não consegui ficar dentro daquele cubículo escuro, e sai fora pra tomar uma em qualquer outro lugar.
O vermelho na parede era ofuscado pelo branco que se seguia, num vigiar dos homens feitos por outros homens, conhecidos por nós varzeanos como homens. Esses homens pejorativamente falando, nos cercam a todo instante, mercenários pagos pelo Estado, ganham tão mal quanto qualquer um ali da várzea, e se sentem importantes. Ignoramo-os como se ignoram moscas no lixo, e seguimos em cambaleante e divertido caminhar, até topo do monte, o Edifico Maletta. Lá mandei o ultimo torresmo do lugar, e salvei minha vida por alguns instantes, pois logo após isso, encontrei uma turma diferente no mundo varzeano, a famosa Nata da Lama. Nesse contexto de difusão filosófica e lamística do encontro, me perdi em euforia alcoólica, deixando-me levar pela ocasião. Não me lembro muito dessa noite, só de seguir pelas ruas iluminadas não só pela nossa querida luz laranja, mas também pela Lua, que sumida das nossas vidas, conseguiu iluminar o mais profundo lugar da metrópole. Na várzea iluminada, me despedi dos amigos e segui rumo ao ponto de ônibus, lá na Estação Caetés, esquina com Espírito Santo. A lua deitava por trás da Afonso Pena em espetacular perspectiva, quando avistei a tão sonhada maquina que me levaria pra casa. Sai da várzea anestesiado pela endorfina necessária para seguir acordado sem dores pelo cansaço. Rumei norte, rumo a minha casa distante, mas naquele momento, muito desejada. A noite é o cenário de fundo do varzeano, sob a luz laranja tudo é mais vivo, mas sob o Luar Bhbilônico, tudo fica mais incrível. Memorável!
8 de nov. de 2011
Varzeando
Cai à noite na Bhbilônia, o ar desce frio da montanha e gela a metrópole na montanha. Lá embaixo na várzea do Arrudas, desço do ônibus na Praça da Estação e logo procuro abrigo em algum bar lama da região. Venta frio lá fora. A praça é uma grande área concretada e aberta sem lugar para se proteger. Ainda está muito cedo para curtir um rock, por isso resolvo subir para o pico mais alto do Baixo Centro, o edifício Maletta. Lugar sagrado para alguns varzeanos, faz parte do circuito lamístico da várzea, que inclui também lugares clássicos como Bordello, Vagalume , e toda uma gama de bares que dominam a região a noite.
Para passar o tempo peço uma cerveja no balcão e sento olhando para os azulejos viajados do lugar. A cerveja vem trincando, gelada, dessas mofadas. Um gole e logo peço um acompanhamento clássico da dieta de um varzeano, um torresmo com limão. Explosão de sabores. O relógio caminha lentamente, mas após a terceira cerveja, vejo que já é hora de ligar para alguns varzeanos que devem estar de bobeira pelo Baixo Centro. O Baixo Centro da Bhbilônia é um local reservado ao comercio popular durante dia, e a boemia lama à noite. Se de dia o Baixo Centro dá arrepios no varzeano, a noite entre o Viaduto Santa Tereza, até o fim da avenida Augusto de Lima com Contorno, ele se sente em casa. E é a noite que me sinto bem perambulando pela região. Não há temo porque faço parte dela, e embriagado como todos os outros que por ali vagueiam, fico conectado na mesma realidade de todos que ali estão. Os varzeanos perambulam toda a noite em busca de uma diversão barata e que lhe tire da realidade maldita em que vivem, pois sabem que é a noite que a vida faz sentido.
Saí do Maletta e desci em direção aos bares da Rua Aarão Reis, em frente aos pontos de ônibus ainda lotados, mesmo sendo 23h da noite. São os últimos ônibus partindo, quem ficar só poderá voltar no outro dia de manha, e perambulará por bares que irão ir fechando um a um, até que sobre apenas o Vagalume, lá na baixada da Rio Grande do Sul. Lugar esquecido da metrópole, essas ruas são desagradáveis de dia, mas incrivelmente vivas a noite. Encontrei alguns amigos no bar próximo ao viaduto Santa Tereza, onde comemos uma porção de tropeiro tão servida, que alimentaria quatro adultos famintos. Pesado. Seguimos para o Mercado Novo, onde iria acontecer um movimento cultural independente de BH, lugar diferente do resto, ilhado em meio a várzea, onde a burguesia cultural se diverti. No caminho até lá, passando pelos vários lugares do baixo centro, demos a volta pelo lugar mais deplorável da metrópole, na região da rodoviária, embaixo do elevado de viadutos que levam todos para longe dali.
O crack domina a região, e várias pessoas cambaleiam em desacerto de passo, sem reação e sem perspectiva de vida. Essas pobres almas que habitam a várzea foram deixadas de lado por deus, e obrigadas a viverem no purgatório terreno. Quem sabe não seria o inferno? Enfim, caminhamos tranquilos, pois embriagados nada pode nos dar medo. Depois de dois bares onde fizemos paradas estratégicas para tomar uma dose da pior cachaça que existe em Minas, chegamos ao Mercado Novo, na Olegário Maciel. Era meia noite, e antes de subir passamos no Vagalume para tomar a cerveja mais barata do Centro da Bhbilônia. Uma Original valoriza a vida do varzeano assim como a água benta para o católico, então entre originais e batatinhas encharcadas de óleo, perdemos a noção do tempo e já era quase 3horas. Hora então de tentar entrar, subimos as escadas do Mercado e na euforia do álcool, conseguimos pular a escada e entrar antes de passar pelos seguranças. O álcool permite que façamos coisas que não faríamos normalmente. Além da euforia, há também um estado de imoralidade que permite agir sem que a consciência o incomode. Lá dentro tava rolando um Dj que tocava um Dub Jamaicano, mas logo ficamos enjoados disso, pois a cerveja era muito cara, então decidimos sair fora e voltar lá para o tradicional Bordello, um bar boate que surgiu transformando a noite na região. Dessa vez alguém de carro aparece e nos dá uma carona, até a rua da Bahia com Tupinambás na padoca 24h que sempre salva nessas horas. Laricamos alguma coisa entre uma empada e um pão pizza, e fomos para a porta do Bordello vê o que pegava. Já era quase 4horas quando chegamos e o movimento já estava por terminar, apesar de uma galera ainda estar na porta.
Entramos sem pagar de novo, pois já estava tarde e depois disso não me lembro muito do que rolou. Alias lembrar de toda a noite não é uma coisa digna de um varzeano, pois só a amnésia pode nos livrar do sofrimento diário. Quanto menos se lembra melhor é. No fim, caminhando até a Caetés com Espírito Santo, vejo meu balai vir milagrosamente as 6:30 da manha, e melhor ainda, era um horário que o ônibus era Retorno, e não daria a volta pelo centro. Fim de energia, dormir no ônibus até despertar assustado em meu bairro. Mais um dia de rock, mais um dia de vida, mais uma noite varzeana, na metrópole vadia.
Para passar o tempo peço uma cerveja no balcão e sento olhando para os azulejos viajados do lugar. A cerveja vem trincando, gelada, dessas mofadas. Um gole e logo peço um acompanhamento clássico da dieta de um varzeano, um torresmo com limão. Explosão de sabores. O relógio caminha lentamente, mas após a terceira cerveja, vejo que já é hora de ligar para alguns varzeanos que devem estar de bobeira pelo Baixo Centro. O Baixo Centro da Bhbilônia é um local reservado ao comercio popular durante dia, e a boemia lama à noite. Se de dia o Baixo Centro dá arrepios no varzeano, a noite entre o Viaduto Santa Tereza, até o fim da avenida Augusto de Lima com Contorno, ele se sente em casa. E é a noite que me sinto bem perambulando pela região. Não há temo porque faço parte dela, e embriagado como todos os outros que por ali vagueiam, fico conectado na mesma realidade de todos que ali estão. Os varzeanos perambulam toda a noite em busca de uma diversão barata e que lhe tire da realidade maldita em que vivem, pois sabem que é a noite que a vida faz sentido.
Saí do Maletta e desci em direção aos bares da Rua Aarão Reis, em frente aos pontos de ônibus ainda lotados, mesmo sendo 23h da noite. São os últimos ônibus partindo, quem ficar só poderá voltar no outro dia de manha, e perambulará por bares que irão ir fechando um a um, até que sobre apenas o Vagalume, lá na baixada da Rio Grande do Sul. Lugar esquecido da metrópole, essas ruas são desagradáveis de dia, mas incrivelmente vivas a noite. Encontrei alguns amigos no bar próximo ao viaduto Santa Tereza, onde comemos uma porção de tropeiro tão servida, que alimentaria quatro adultos famintos. Pesado. Seguimos para o Mercado Novo, onde iria acontecer um movimento cultural independente de BH, lugar diferente do resto, ilhado em meio a várzea, onde a burguesia cultural se diverti. No caminho até lá, passando pelos vários lugares do baixo centro, demos a volta pelo lugar mais deplorável da metrópole, na região da rodoviária, embaixo do elevado de viadutos que levam todos para longe dali.
O crack domina a região, e várias pessoas cambaleiam em desacerto de passo, sem reação e sem perspectiva de vida. Essas pobres almas que habitam a várzea foram deixadas de lado por deus, e obrigadas a viverem no purgatório terreno. Quem sabe não seria o inferno? Enfim, caminhamos tranquilos, pois embriagados nada pode nos dar medo. Depois de dois bares onde fizemos paradas estratégicas para tomar uma dose da pior cachaça que existe em Minas, chegamos ao Mercado Novo, na Olegário Maciel. Era meia noite, e antes de subir passamos no Vagalume para tomar a cerveja mais barata do Centro da Bhbilônia. Uma Original valoriza a vida do varzeano assim como a água benta para o católico, então entre originais e batatinhas encharcadas de óleo, perdemos a noção do tempo e já era quase 3horas. Hora então de tentar entrar, subimos as escadas do Mercado e na euforia do álcool, conseguimos pular a escada e entrar antes de passar pelos seguranças. O álcool permite que façamos coisas que não faríamos normalmente. Além da euforia, há também um estado de imoralidade que permite agir sem que a consciência o incomode. Lá dentro tava rolando um Dj que tocava um Dub Jamaicano, mas logo ficamos enjoados disso, pois a cerveja era muito cara, então decidimos sair fora e voltar lá para o tradicional Bordello, um bar boate que surgiu transformando a noite na região. Dessa vez alguém de carro aparece e nos dá uma carona, até a rua da Bahia com Tupinambás na padoca 24h que sempre salva nessas horas. Laricamos alguma coisa entre uma empada e um pão pizza, e fomos para a porta do Bordello vê o que pegava. Já era quase 4horas quando chegamos e o movimento já estava por terminar, apesar de uma galera ainda estar na porta.
Entramos sem pagar de novo, pois já estava tarde e depois disso não me lembro muito do que rolou. Alias lembrar de toda a noite não é uma coisa digna de um varzeano, pois só a amnésia pode nos livrar do sofrimento diário. Quanto menos se lembra melhor é. No fim, caminhando até a Caetés com Espírito Santo, vejo meu balai vir milagrosamente as 6:30 da manha, e melhor ainda, era um horário que o ônibus era Retorno, e não daria a volta pelo centro. Fim de energia, dormir no ônibus até despertar assustado em meu bairro. Mais um dia de rock, mais um dia de vida, mais uma noite varzeana, na metrópole vadia.
Varzear
Varzeava pela cidade, em busca de alegria e felicidade oferecidas pelos bares das paralelas e transversais ruas belorizontinas centrais. Sem sinal de cansaço, utilizando do ato de se embriagar mais e mais, para no fim em contida demência, cambalear pelos pontos de ônibus, dando aleatórios sinais para que algum motora parasse e me levasse embora. Longe de qualquer estresse o varzeano perambula pela várzea até que encontra na movimentada avenida comercial, sombria e vazia sob a luz laranja, um churrasquinho de rato que aqueles homens caçaram pela tarde. Um gole num latão molhado de uma água fria, não refresca nem mata a sede, só aumenta o enjôo que seu fígado em quase morte produz para lembrá-lo que antes de ser um sujeito varzeano, ele é um ser humano, bicho que sofre por saber que pode sofrer. E anda em ziguezague desviando dos falsos vultos que só ele vê, em um descontinuado passo de quem não quer crer. Crer ou não crer, eis a questão, e foi isso que me perguntaram no banco do busão quando voltava pra casa em sonolenta depressão. Era um crente demente, sem instrução, que berrava lá na frente que só Jesus é a salvação. Em relapso de sono, levantei e dei sinal, pedindo pro motora parar ali mesmo, pois meu fígado estava mal. Desci na borda da várzea, antes de sair do centro em direção de casa, e caminhei até um bar que jazia aberto entre bêbados e pedretes. Uma puta me ofereceu prazer, mas queria era um chá de boldo gelado para beber. Pedi água torneiral pois não tinha mais nenhum real, e encostado no balcão do bar, cochilei sem perceber. Acordei assustado com um tapa no ombro de um amigo que chegava ali quase no amanhecer. Disse pra mim que tava rolando um rock na casa de um amigo e me chamou para ir lá com ele pra ver, eu acordei em cambaleio, deslizei sobre o passeio e nem vi como lá cheguei. Só sei que subi as escadas, atravessei uma porta e adentrei o apê, que estava cheio de gente que mal conhecia, bebiam e fumavam num constante entorpecer. Avistei um sofá, e logo fui me deitar para ver se parava de girar o mundo que custava para entender. Minha coluna me agradecia por estar ali deitado, mas meu corpo estirado, só me causava sofrer. O dia ia amanhecendo, o centro se remoendo em apressado trançar de gente a correr, atrasados pro trabalho onde o chefe os esperava para dar o que fazer. Alguém me ofereceu café, mas era um migué, pois era catuaba com mé, difícil de descer. Um gole e tudo foi por agua abaixo, morri de cansaço depois de vomitar até morrer. Duas horas depois, em plena terça feira, eu desci tentando ir embora, pois o varzeano não agüenta quando o Sol começa a ferver. Desci pro ponto errado, mas ai aparece o acaso para me salvar de tanta loucura naquela noite que já era dia. Meu ônibus havia desviado, por motivo de batida em outra parte do centro, vindo diretamente a meu encontro me levar pra casa sem ao menos eu entender. Acordei no meu bairro, com a cara na janela, não havia resistido ao sono e quase do ponto eu passei. Quando avistei minha cama, tão quentinha e bacana, orei e rezei ao deus da várzea por mais um dia de culto a transcender. É que essa vida é marvada, mas é boa quando se descobre que não há motivo para se viver. E eu ali depois de descer do D, não sabia se era sonho o realidade, mas sei que em algum lugar dessa cidade, embaixo de ruas e avenidas, há rios a correr.
Num descuido de olhar
Num descuido de olhar, foquei o rosto daquela linda mulher, que esbanjava um certo ar de direito, de poder, mas que no fundo era puro sorriso a derreter. Era um sábado chuvoso e no ponto observava um ônibus passar com aquela mulher que eu não sabia quem era, não sabia para onde ia, mas que precisava conhecer. Esse tipo de acontecimento que nos faz bobos é tão bom de se sentir que me perderia todo dia pelo centro da Bhbilônia a me apaixonar por olhares que passam despercebidos por todos. Esse olhares jogados no ar, muitas vezes tem muito a dizer. Aquela mulher era diferente de todas, pois ela também me olhava, com um indistinto sabor. Era como ser eu estivesse ali apenas para ser visto, e nessa rápida troca de olhares, ficamos satisfeitos. Essa flertada inconsciente nos deixou pensativos, nos fazendo crer em futuros romances.
Passaram-se dez minutos e meu ônibus veio, e eu sentei em uma janela só para observar outros olhares como aquele, e quem sabe sentir de novo aquele sentimento. Passou-se alguns pontos e eu vi na rua parada em uma esquina aquela mulher do ônibus, que novamente me olhou, e eu sem conseguir desviar meu olhar fiquei paralisado. Paixão a primeira vista, dei sinal e desci no primeiro ponto ali adiante, e caminhei cerca de 40 metros até avista-la. Era uma ilusão minha, um devaneio, pois quem me garantiria que aquela mulher me daria alguma bola, ali naquela avenida comercial barulhenta e cheia de gente? Mas a cada passo uma certeza de que ali se iniciaria um grande amor aumentava, junto de meus batimentos cardíacos, pois meu coração nesse instante já estava na boca. Faltava cerca de 10 metros e ela ainda não tinha me visto, estava impaciente ali na esquina, esperando alguém parecia, e eu seguindo lentamente para que ela me visse chegar.
A três metros daquela bela figura feminina, já podia sentir seu cheiro contrastando com a fumaça e a gordura que dominavam o ar, um cheiro tão saboroso que não consegui mais me conter e quando me preparei para falar “oi”, um homem surgiu e a beijou na boca. Fim de jogo, fim da ilusão. Acabei por me afundar e um copo de cerveja para esperar o meu ônibus que só viria dali a longos quarenta minutos. Não que eu tenha ficado triste, ao contrario, aqueles seis minutos foram os mais grandiosos dos últimos dias, seis minutos de uma curta paixão, cheia de altos e baixos, acertos e desacertos, encontros e desencontros. Não que eu esperasse um final feliz, mas construir pequenas estórias de amor em meio a um povo que perdeu a muito esse sentimento, é um tanto quanto legal. Sinceros olhares são raros, não há como desperdiçar.
Passaram-se dez minutos e meu ônibus veio, e eu sentei em uma janela só para observar outros olhares como aquele, e quem sabe sentir de novo aquele sentimento. Passou-se alguns pontos e eu vi na rua parada em uma esquina aquela mulher do ônibus, que novamente me olhou, e eu sem conseguir desviar meu olhar fiquei paralisado. Paixão a primeira vista, dei sinal e desci no primeiro ponto ali adiante, e caminhei cerca de 40 metros até avista-la. Era uma ilusão minha, um devaneio, pois quem me garantiria que aquela mulher me daria alguma bola, ali naquela avenida comercial barulhenta e cheia de gente? Mas a cada passo uma certeza de que ali se iniciaria um grande amor aumentava, junto de meus batimentos cardíacos, pois meu coração nesse instante já estava na boca. Faltava cerca de 10 metros e ela ainda não tinha me visto, estava impaciente ali na esquina, esperando alguém parecia, e eu seguindo lentamente para que ela me visse chegar.
A três metros daquela bela figura feminina, já podia sentir seu cheiro contrastando com a fumaça e a gordura que dominavam o ar, um cheiro tão saboroso que não consegui mais me conter e quando me preparei para falar “oi”, um homem surgiu e a beijou na boca. Fim de jogo, fim da ilusão. Acabei por me afundar e um copo de cerveja para esperar o meu ônibus que só viria dali a longos quarenta minutos. Não que eu tenha ficado triste, ao contrario, aqueles seis minutos foram os mais grandiosos dos últimos dias, seis minutos de uma curta paixão, cheia de altos e baixos, acertos e desacertos, encontros e desencontros. Não que eu esperasse um final feliz, mas construir pequenas estórias de amor em meio a um povo que perdeu a muito esse sentimento, é um tanto quanto legal. Sinceros olhares são raros, não há como desperdiçar.
Da Varzea
arrependimento por não ter ido pra casa mais cedo. Mas ai o rock em sua essência não nos permite a fuga antes do momento auge, que ocorre minutos antes da derrota, aquele momento em que a euforia do álcool contagia tudo e todos. Excesso de felicidade toma conta do ar, e a luz que se acomoda no alaranjar dos postes, torna universal todos os lugares. As ruas que beiram a planície do defunto rio Arrudas, são o lugar da malucada que a principio nada teme. Por ser o lugar em questão que transmite mais medo aos adestrados, a várzea é propicia aos exageros, aos sonhos e desilusões. É inclusive o ponto inicial de uma longa jornada de volta dentro do ônibus, nas alvoradas belorizontinas que frias, nos atormentam. A luz forte do astro rei acaba com o ilusório mundo alaranjado da noite, e nos faz lembrar que mal sabemos como vamos chegar em casa. Nesse lapso de consciência percebemos que não pegamos o ônibus que para mais próximo, e sim um que passa um tanto quanto distante da sua morada. Sua memória mal se lembra do momento em que entrou naquele coletivo, pois deitado no canteiro central lama de uma avenida comercial da várzea, quando você era quase vencido pelo cansaço, aquele ônibus o salvou. Melhor dormir no ônibus que na rua, e ao acordar assustado no fim da linha, a ultima energia se converte em guia para leva-lo a cama de casa. Parece que o varzeano tem uma proteção extra em suas loucuras, pois por pior que se encontre, consegue sempre chegar em casa. É claro que há exceções, momentos de falta de energia, vitória do sono. Dormir na calçada, bancos, ônibus, praças, ruas, e até na porta de casa, fazem parte da cultura varzeana, que vive a espreita do acaso. Mas em sua grande maioria, as noites são espetáculos de um cotidiano de luzes e cores inconstantes, sombreado de descontração e sons musicais. O dinheiro nem sempre consegue acompanha-lo até o fim , e mingua em rápida velocidade madrugada adentro, deixando aos homens da planície de inundação a “moral” como solução para o retorno a casa. A “moral”que perpassa por um simples ato de tranquilidade, é a passagem gratuita que se tem direito nas madrugadas onde o transporte mal existe. É o coleguismos dos homens, quando um adestrado se torna mais humano, e ajuda um varzeano. São noites e noites, casos e acasos, mas sempre num tom de felicidade que leva esses homens a retornarem na próxima noite, mesmo sem dinheiro algum, mesmo sem saber como voltar, pois para o homem da luz laranja, só o dia pode o desanimar.
Laranja noturno
O que te lembra a cor laranja? Laranja me lembra a noite, a boêmia, o rock, uma diferente e alegre sensação na metrópole quando ela adormece, tornando-se o temor de uns, o cansaço de outros, e a felicidade daqueles que fazem da noite um espetáculo. Sair perambulando pela várzea do Arrudas em busca de entretenimento na região do baixo centro, circulando pela grade de Reis, me torna um habitante do vazio noturno, no espaço abandonado pelos homens adestrados da cidade. Resumindo a imensidão concretada a uma simples região, faço no enrugado relevo das montanhas Gerais o caminho mais plano. Na várzea do maior rio da cidade, morto e devidamente enterrado, caminho em planura ilusão, cercado de gigantescas torres, dominadoras da paisagem. Na Bhbilônia não há o escuro da noite, uma ilusão laranja domina o ambiente trazendo uma diferente percepção aos olhos, diferente da luz azul do dia, tornado as cores mais lúdicas, mais boemias. O temor de uns, é a liberdade de outros, e assim os homens adestrados, repugnam o valor cultural daquele povo que vagueia entre tribos e estados, nas madrugadas onde os adormecidos escravos recuperam a energia para venderem seu trabalho. Talvez essa inveja dos servos seja a explicação para o fato de tal área ser tão degradada. O povo do lugar não vive ali, vive longe, povo periférico. Vive agarrado ao centro da metrópole, como única possibilidade que ela lhes deu de se divertirem. Entre bêbados e pedretes, prostitutas e mendigos, médicos e advogados discutem com empresários e estudantes, tantos ricos tantos pobres, mas todos em alegre embriaguez, em um estado de realidade coletiva onde no real, nada é impossível. Diferente dos dopados escravos tarjados de preto, o povo do Arrudas é diferente, está em alerta e quer apenas mais um gole, para fugirem da realidade da maioria, motivo de aborrecimento. Não conseguem entender aqueles que vivem sempre buscando reproduzir a mesma novela, que querem o final feliz. Esses não, o povo da várzea gosta é de sentir as sensações que a vida impedida de ser livre, pode nos dar. Vagueiam em desconcertante deriva, conhecendo cada esquina do projeto de Reis, consumindo cada canto, sem hora para voltar. Ao alvorecer, o povo da noite regressa em sonolenta viagem, deslocando-se pelas grandes vias que os levam para o outro lado da cidade, longe de sua terra prometida. O espaço sagrado daquele povo varzeano, é devorado pelos escravos durante o dia, em centena de milhares de ações. Mas no acender dos postes, a luz laranja voltará a reinar, e aquele povo irá outra vez, cultuar a sua fé.
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