No destampar da ampola do diurético preferido da Várzea, coincidi uma troca de olhares com uma mulher que se aproximava de mim em elegante andar. Destoava do embriagado andar costumeiro dos varzeanos, mais ainda por ser claramente uma pessoa que não era dali, ou que deveria temer aquele lugar. Ali sob a luz laranja, na arborizada e sombria rua da várzea, lá na Padre Belchior, aquela mulher havia se tornado o centro de todas as atenções, e eu ali na saidera da noite, enchia o copo de um qualquer ao meu lado. Logo tudo foi desmistificado e descobrimos o porquê de sua presença. Estava esperando um ônibus que a levasse para longe daquele estranho e mal vestido lugar da cidade, e olhava com um certo temor para todos que estavam por lá. Havia ainda no ponto uma senhora com um bebe de colo, dois casais e alguns estudantes. Fiquei debruçado sobre o balcão olhando continua e hipnoticamente para aquela mulher, que não parecia ser muito mais velha que eu, e que por alguns milésimos de segundo, ousava olhar para dentro do bar.
Por algum motivo, quando eu já havia me cansado de olhar pra ela no ponto e estava prestes a zarpar, ela veio em direção ao bar, e adentrou a densa nuvem de gordura que pairava sobre o ar. Um tropeiro enorme dentro de uma vasilha era posto dentro da estufa do balcão, e um bafo de torresmo bateu em nossas caras. Eu tentava esconder o meu espanto e admiração pela coragem daquela mulher, e sem mais temer a distância que nos separava, ofereci-lhe um copo. Ela gentilmente recusou, e pediu uma água ao garçom. Sorri pra ela, e pedi desculpas dizendo que admirava o fato dela adentrar um lugar tão mal visto da Bhbilônia. Ela retribuiu o sorriso, e disse que gostava daquele lugar, que sempre que podia tomava uma cerveja antes de ir embora , mas já estava quase na hora do seu ultimo ônibus passar, e ela tinha de ir. Fiquei receoso quanto a parte dela gostar dali, até que tudo mudou naquela noite.
O garçom de nome simpático, havia pegado um copo lagoinha vazio, ido ate a torneira da pia da cozinha encher de água. Voltou de dentro de uma nuvem de gordura com aquele copo e entregou a mulher. Ela agradeceu e tomou num gole só. Foi ai que entendi que a água que ela queria, não era uma torneiral, mas sim o mosto da cana de açúcar fermentado, límpido como a água, porém muito mais FORTE. Desembrulhando o estomago, disse a ela que aquilo era uma atitude doida, e então ela me ofereceu uma água daquela. Não podia recusar por mais que não estivesse nenhum pouco afim de beber cachaça, mas como estava interessado em uma conversa com aquela mulher, cedi a tortura alcoólica e mandei num só gole uma dose da desequilibrante água. Em divertida conversa, a euforia da álcool nos deixou livre da ditadura do ônibus, e esquecemos que tínhamos de voltar pra casa.
Depois de mais umas doses, seguimos cambaleantes e felizes pelas ruas da várzea, trocando papos fiados em longas historias mais mentirosas que reais, um tanto impressionistas, para fazer aumentar a vontade mutua de conhecer o outro. E no desenrolar dos fios do papo, descobrimos gostar muito do mesmo, e resolvemos parar em uma esquina da grande avenida comercial que naquela hora era sombria e deserta. Havia vida naquela esquina, e vida comercial pois um tiozinho vendia um churrasquinho de carne muito mal passado, pouca brasa pra muito espeto, e nesse andar noturno resolvemos nos abastecer e comer aquele nada aconselhável alimento urbano. Para fazer descer os duros pedaços de gordura em nossa boca, compramos um latão de cerveja que boiava na água rala dentro de um intemperizado isopor. Morno e molhado, aquele latão era o desanimo do alcoólatra e mesmo assim bebemos ele sem pestanejar, alias, sem perceber. Era pra mais de três horas da manha, quando de súbito minha companhia que até aquele momento eu não me lembrava o nome , disse que queria dormir e perguntou se eu não animava dividr um motel em algum lugar da várzea. Institivamente olhei para o outro lado da rua e vi que ali havia um motel com nome irreverente e uma luz negra que destoava do entorno. Atravessamos a avenida e fomos em direção para saber o preço do pernoite. Era incrível, muito barato para o que pensamos e pelo que precisávamos foi quase de graça. Uma noite bem dormida era a pedida, e naquele momento havia todo o tesão reprimido de ambas as partes, que parecia ter ali seu limite.
Era quase quatro horas da manha quando finalmente entramos no quarto e ficamos juntos de vez e finalmente, mas tudo aquilo que pareceria ser bom, se virou contra mim. Aquela mulher que tanto me inspirava, me brochou ao dizer coisas desnecessárias sobre motéis e ex-namorados, coisas que não cabiam no momento, e eu resolvi ir deitar de vez. Ela ficou espantada por eu não ter partido pra cima dela ou algo do tipo, mas por estar tão cansado e ao lado de uma mulher historiadora, dessas que só falam do passado, eu me recusei a gastar a energia que fosse , e dormi ridiculamente ao lado de uma linda mulher num motel sem ao menos beijá-la. De nada vale um amor noturno se ele é igual a todos os outros diurnos. Amores noturnos só valem a noite, e nesse caso era apenas um amor diurno se fazendo de noturno. Na Bhbilônia as pessoas se perdem em tempos que seus corpos não conseguem viver, e quando tentam viver tempos diferentes, sofrem por não conseguirem. Em todos os cantos da várzea vivi amores e ilusões, mas no coração da gente sempre fica guardado as recordações exageradas dos acertos. Os erros acabam por sumirem na memória. Sem então mais filosofar na lama que me sentia, decidi pegar meu ônibus assim que amanheceu, e na caótica manhã Bhbilônica, central e sem piedade, desci as escadas do motel e cai de cara na claridade infernal da cidade, em meio a uma tempestade de ruídos e informações. Naquele momento só desejava o silêncio e um copo de água. Eram essas as minhas intenções.
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